domingo, 25 de julho de 2010

A banca e o banco


Era uma avenida movimentada. Talvez a mais importante do país. Era repleta de prédios, cujos empreendimentos a cercavam de vida, e estava rodeada de placas e letreiros. Por ela, passavam diariamente diversos rostos sob distintos interesses. Umas à pé. Outras em seus possantes automóveis.

Dentre os vários estabelecimentos comerciais que ali habitavam, havia uma banca. Sim, uma banca de jornal. Simples, graciosa, colorida. Por mais que nas proximidades houvesse outras bancas, aquela tornara-se única, tanto pela sua bela aparência como pela variedade de produtos que ali eram abrigados.

Do outro lado da rua, via-se de longe um banco. Sim, um banco financeiro. Sua marca demonstrava status. Seu interior revelava riqueza. Seu nome e slogan convidavam a nobreza a adentrá-lo.


No meio da noite, enquanto a cidade dormia, a banca volta-se para o banco e pergunta: - Os negócios aí hoje não foram tão bons, foram? – O banco olha para os lados, procurando saber quem teve a ousadia de interromper o seu momento de descanso.

A banca prontamente revela: - Fui eu sim, senhor banco. Como o senhor deve saber, agora há pouco houve um... O banco subitamente a interrompe: - Você não se enxerga? Sou o banco. O melhor de todos. O mais rico e com clientes mais poderosos. Aqui só entra gente nobre, especial. Não fui feito para qualquer um. Falando nisso, como você ousa atrapalhar o meu momento de folga? Não vê que eu já trabalho muito durante o dia e ainda fica me roubando o sono?

A banca fica sem fala. Após ter levado tamanha reclamação em forma de gritos (que quase acordaram a igreja... santa igreja!), ela fica sem voz e recolhe-se ao seu lugar de origem: humilhada, calada, desconsolada.


Passa-se a noite e, no dia seguinte, só se vê correria no banco. Pessoas entram nele e saem raivosas. Outras, chorando. Outras, desesperadas. Tumulto geral.


Chega a noite e, após um longo dia de trabalho, a banca olha pro banco e diz: - Boa noite, Sr. Excelentíssimo Banco, como passou o dia?

O banco, desolado, olha para a banca e fala: - Como eu não sabia que isso iria acontecer? O governo confiscou todas as poupanças dos meus clientes e hoje, quando chegaram aqui para retirar seus ativos, eu não pude entregar a eles o que lhes era de direito.

A banca olha firmemente para o banco e responde:

- É, Seu Banco. Como toda a minha insignificância, eu sabia que hoje o presidente decretaria o confisco das cadernetas de poupança haja vista conter a inflação. Isso estava escrito em alguns dos jornais que eu comercializo aqui. Sou humilde, mas represento idéias, discursos, pensamentos, registros, conhecimento. Não tenho dinheiro, mas tenho informação. Boa sorte, seu banco, pois eu, pequena que seja, continuo aqui vendendo minhas revistas e periódicos.


O banco subitamente olha para a banca e fala: - É, fali.


Salomão Cunha Lima